January 7, 2009

igual

Era uma gota de suor nas costas.

Percorria aquela depressão com o cuidado e o esmero daqueles que andam numa viela cravejada de buracos e cercada pela escuridão.

Meandrando pelas vértebras cervicais, afogando pelinhos, chegou ao seu ponto final: coccix!

Incomodando a proprietaria da dorsal, levou um tapão exterminador de moscas e desfez-se em lembranças e num certo alivio.

Estava acostumada àquele destino.

Seu maior sonho era, porém, um dia fundir-se às aguas do mar, pois salgadas como ela.

October 1, 2008

Romanticozinho sticky

Take my broken heart
and glue it all together
I don’t wanna a member that has fallen apart
What I really need is a shelter

September 29, 2008

Na parada do ônibus (Poema do povo)

dois por cinqüenta centavos e quatro por um rôal
A promoção é essa, né? Porque uma é trinta!
Não deixem de levar!
A distração do passeio de ônibus,
o presente dus mininu da vizinha!

August 22, 2008

tonalidades

às vezes

Certas Coisas

mudam de nome

porque ja perderam a cor

daquela denominação

anterior.

August 11, 2008

Manoel de Barros

 

Eu prefiro as máquinas

que servem para não funcionar:

quando cheias de areia,

de formiga

e musgo -

Elas podem um dia

milagrar de flores.

July 27, 2008

Rica ou pobre, com voce quero rima de toda sorte

Acordar todo dia

e, ao meu lado,

a sua companhia

sim, sim, eu queria

 

Um beijo de hortela

depois do café-da-manha

todo dia

eu lhe daria

 

Na saída p´ro trabalho

mesmo assim

voce de pingüim

Eu lhe traria pra pertinho de mim

 

Numa mesa de quina,

voce entre estórias de glória

ou de meninas

pra contar

 

Mas, no seu pensamento,

veja o tormento!

só eu a lhe acalentar

 

Entre uma letra e outra,

eu lhe ligaria afoita:

-Quero só voce amar!

 

Voce ficaria com cara de otário,

mas fingiria voz de operário:

“-Prepararei nosso jantar”

 

E, ao voltarmos da labuta,

travaríamos uma luta

Voce seria meu querido

E eu, a sua fruta

 

Fim alternativo:

Depois do dia de labor,

travaríamos uma luta

Voce seria meu amor

E eu, a sua …. =P

June 16, 2008

Destino: desconhecido

 

Cheguei. No meio do mar de pessoas e alguns animais, apenas rostos desconhecidos. Não sei porque sempre queremos encontrar uma face amiga quando viajamos a um lugar estranho. Mas não havia ninguém a me esperar.

 

Ok, desci a rampa e sentei no banco ao lado do elevador. Ele estava lá, a poucos metros, radiante. Não continha a sua felicidade naqueles pequenos olhos cor-de-oceano-imenso. Estava nervoso, entretanto.

 

Em sua mão esquerda, uma rosa de Granada, num tom que variava do vermelho sangue ao vinho cabernet. De cabo longo, seus espinhos haviam todos sido retirados, afim de que a flor se tornasse inofensiva. A essência exalada me atingia, mesmo daquela distância.

 

Quis falar com ele.

 

Cheguei a me levantar, porém, percebi que talvez não fôssemos capaz de nos entender. Achei melhor evitar o abismo comunicativo permanecendo ali sentada a observá-lo por mais algum tempo.

 

Vi, então, em sua outra mão, uma pequena caixa tão rubra e aveludada quanto a flor trazida pela comparsa. A trilha sonora eram as campainhas e a voz de uma mocinha informando partidas para e chegadas dos mais inusitados lugares do mundo. Fiquei eu nervosa.

 

A apreensão dele crescia na espera. Eu precisava fazer algo.

 

Levantei. Dei dois passos largos, mas, ao iniciar o terceiro em sua direção, exitei.

 

Ele se virou, olhou para o além e lá estava ela. Finalmente, ele a beijou, entregou-lhe a flor. Em seguida, ajoelhou-se, abriu a embalagem felpuda e, naquele mesmo saguão sob os olhos de várias testemunhas, fez seu pedido.

 

Uma mão pousa no meu ombro: minha prima chegara. Disse haver errado de portão, deu-me um abraço e um beijo. Fomos embora.

June 14, 2008

Verde e Rosa e(m) pranto

Hoje, uma noticia triste, que não combina com o colorido lindo da verde e rosa, morreu o José Bispo Clementino dos Santos, popular Jamelão. Mas, como diria Cartola, ainda bem que

Em Mangueira
Quando morre
Um poeta
Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira
É tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra agente

Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro ou de um tamborim

=~~

June 10, 2008

Don’t think twice, it’s all right

 

O choro da gaita do Dylan, a saborosa grama recém-brotada daquele jardim construído por um monarca para a sua Rainha, o sol amenizado pela brisa primaveril e dedos brincando de se confundirem.

 

Estávamos horas a fio em conversas sem sentido mas com direção, saíssem as palavras dos lábios ou fossem elas pronunciadas pelos olhos.

 

Tirando-me para dançar, agarrou minha bunda enquanto me fitava intensivamente. Entendi o quanto ela me queria.

 

Sumimos.

 

Momentos depois, nossas mãos se soltaram.

 

Voltamos a nos ver sete anos e quaisquer meses mais tarde e, antes fosse mais cedo, pois seu retrato já havia perdido várias cores na minha mente. (Embora, confesso, após aquele segundo, todos os matizes retornaram e de forma ainda mais harmoniosa)

 

Ela me disse « oi » e, dessa vez, nossos corpos nos levaram. Tirei-a para dançar.

June 4, 2008

O dia da criação (fragmento)

Hoje é sabado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje é que é o dia do presente

O dia é sabado.

Impossivel fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios

Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas

Todos os maridos estão funcionando regularmente

Todas as mulheres estão atentas

Porque hoje é sabado.